A aventura de publicar um livro

23/11/2010 – 07h00

A aventura de publicar um livro

Reinaldo Polito

Quem olha os números pode ter uma falsa impressão da realidade. Estima-se que já foram publicados no mundo 130 milhões de livros. Se tantas obras assim foram impressas parece simples, basta escrever um livro que haverá pelo menos uma editora interessada em editá-lo.

Quem pensa dessa forma é porque ainda não teve de colocar seus originais debaixo do braço e bater de porta em porta nas editoras. Algumas das grandes editoras recebem montanhas de originais. Só um pequeno percentual é aceito. Os outros são avaliados e recusados, devolvidos e, em certos casos, nem avaliados, nem devolvidos.

Muitos autores, até com excelentes livros, desistem e se conformam em não ver sua obra impressa. Outros lançam mão de suas economias, fazem empréstimo, vendem bens e bancam a própria edição. São raros, entretanto, aqueles que se saem bem publicando os próprios livros.

A maioria recebe o pacote da gráfica, fica feliz em ver sua obra impressa, distribui três ou quatro dezenas de exemplares para parentes, amigos e vizinhos e guarda o estoque para mofar no quartinho do fundo da casa. Faz algumas investidas tentando colocar o livro nas livrarias e descobre que nem em consignação elas aceitam.

Sabendo que não poderão fazer o trabalho sozinhos recorrem a um distribuidor. Ficam indignados quando recebem a grata notícia de que para distribuir os livros serão cobrados de 60% a 70% do que for comercializado. É pegar ou largar. Não significa, entretanto, que mesmo pagando esse montante os livros serão efetivamente distribuídos. Geralmente não são. Nada contra os autores, apenas operações normais do mercado.

Se nem as editoras conseguem colocar com facilidade os livros nas livrarias, imagine, então, os obstáculos a serem superados por um autor inexperiente, sem a mínima noção do que deve fazer e que não sabe por onde começar. Dá para contar nos dedos aqueles que conseguiram sozinhos romper esse bloqueio.

Por isso, é tão difícil publicar um livro. E não há muitas saídas. Para ver o fruto do seu esforço intelectual exposto em uma livraria o autor precisa encontrar uma editora interessada na publicação da sua obra. As editoras, entretanto, cada vez mais, só apostam nos livros com bom potencial de vendas.

Aí é que está o nó da questão. Embora os editores tenham experiência e consigam prever quais livros terão chance de sucesso, nem sempre acertam.

Em certas oportunidades publicam livros que não emplacam e chegam a ser destruídos e vendidos como aparas. Em outras recusam autores que seriam campeões de vendas.

Leonard Mlodnow, no seu ótimo livro “O andar do bêbado”, faz revelações curiosas a esse respeito. Você sabia que alguns livros de John Grisham e J. K. Rowling foram recusados dezenas de vezes? Uma das melhores obras de Grisham, “Tempo de matar”, foi recusado 26 vezes antes de ser publicado. E pensar que esse livro se transformou em sucesso mundial e sua história foi aproveitada para um filme também vitorioso.

O próprio Grisham na página de agradecimentos do seu livro “Caminhos da Lei” conta o seguinte: “Quando ‘Tempo de matar’ foi publicado há 20 anos, eu logo aprendi a dolorosa lição de que vender livros era bem mais difícil do que escrevê-los. Comprei mil exemplares e tive dificuldade até para dá-los. Arrumei os livros na mala de meu carro e saí vendendo-os como um mascate em bibliotecas, clubes campestres, mercearias e armazéns, cafeterias e um punhado de livrarias”.

O primeiro Harry Potter, de Rowling, recebeu nove “nãos”antes de ser impresso. Pois é, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” vendeu mais de 120 milhões de exemplares. Virou paixão de crianças e adultos em quase todos os países. Estou citando apenas esses que são os mais conhecidos. A lista é interminável.

Mlodnow conta também um caso impressionante. John Kennedy Toole não resistiu a tantas negativas das editoras e cometeu suicídio. Sua mãe, entretanto, continuou acreditando, mesmo depois da morte do filho.

Somente depois de 11 anos ela conseguiu o intento de publicar “Uma Confraria de Tolos”. O livro de seu filho conquistou o Prêmio Pulitzer de ficção, e suas vendas superaram dois milhões de exemplares.

Se é que minha história pessoal possa servir como algum tipo de exemplo: levei nove anos desde o momento em que comecei a escrever até a data em que vi publicado meu primeiro livro, “Como falar corretamente e sem inibições”. Hoje na 111ª edição, já vendeu mais de 500 mil exemplares.

Portanto, se você está pensando em escrever um livro, ou já possui alguma obra pronta para ser publicada nunca desista. Saiba que, provavelmente, receberá inúmeros “nãos”. Talvez até digam que você não terá chance. Não acredite. Continue perseverando um, dois, 10, 20 anos. Assim como aconteceu com milhares de outros autores, o momento de ver seu livro publicado, exposto, e, quem sabe, bem-sucedido também poderá chegar.

http://economia.uol.com.br/planodecarreira/artigos/polito/2010/11/23/a-aventura-de-publicar-um-livro.jhtm

Reinaldo Polito é mestre em ciências da comunicação, palestrante e professor de expressão verbal. Escreveu 19 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares

Site: www.reinaldopolito.com.br
e-mail: polito@uol.com.br

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